Quando se fala em suplementos alimentares, observo uma generalização que acaba afastando consumidores que poderiam se beneficiar com o uso de inúmeros produtos. Uma forma bem simples de classificar os suplementos é dividindo-os emesportivos ou alimentares.

Suplementos alimentares são os alimentos em pó, tais como caseína, whey protein, proteína isolada de soja, albumina, refeições líquidas, entre outros. Esses alimentos em pó podem auxiliar na melhora da alimentação de uma criança, gestante, praticante de atividade física de diferentes modalidades e níveis, idoso com dificuldade em ingerir os nutrientes necessários por meio do alimento sólido, paciente em período pós-operatório com alta demanda energético-proteica.
Enfim, toda a população!

Se caseína é um suplemento alimentar, achocolatado em pó e leite em pó também são. A diferença está apenas no conteúdo. Arrisco dizer que, se a caseína e a whey protein fossem vendidas no supermercado, com uma rotulagem dirigida ao público infantil, o consumo entre as crianças seria grande. O mesmo produto com uma pessoa em idade avançada e aparência saudável na embalagem, também atrairia muitos consumidores da chamada terceira idade. Só que a realidade do mercado está bem longe disso. Ossuplementos proteicos e as refeições líquidas, em sua maioria, têm rótulos e embalagens direcionados para praticantes de musculação, o que acaba afastando uma grande parcela da população de seu interesse/consumo. Sem muitas opções, esse público fica à mercê de bebidas prontas açucaradas, bolachas, biscoitos, alimentos ricos em sódio e demais produtos pobres em nutrientes.

Apesar do grande número de publicações sobre alimentação, a verdade é que a maioria da população ainda não sabe comer corretamente. Para piorar, a indústria de alimentos baseia suas pesquisas principalmente no paladar, deixando o valor nutricional em segundo plano. Na próxima vez em que você for ao supermercado, observe. Certamente vai encontrar uma infinidade de produtos com frases sugestivas no rótulo: “rico em fibras”; “enriquecido com vitaminas”, “sem conservantes”. Posso garantir que, com raríssimas exceções, essas chamadas não significam nada para o consumidor comum. Ou você acha que uma barra de “cereais” contendo 0,5 – 1,0 grama de fibras pode ser considerada “rica”, se na verdade precisamos ingerir entre 20 e 30 gramas ao dia? O mesmo vale para bolachas, biscoitos, achocolatados e outros produtos que afirmam serem ricos em vitaminas e minerais, mas contêm na verdade quantidades ínfimas desses micronutrientes. Seguindo esse raciocínio, a alface ou qualquer outra verdura deveria ser vendida com a seguinte advertência: “contém quantidades elevadas de fibras”.

Já os suplementos esportivos, devem ser classificados como produtos específicos para pessoas que geram uma maior demanda de nutrientes por meio do esporte. Entre eles, podemos citar as bebidas ricas em carboidratos, eletrólitos e aminoácidos (muito utilizadas em atividades físicas, como corrida, ciclismo e natação), creatina, BCAAS, glutamina, beta-alanina, ribose, dentre outras. Sendo assim, não faria muito sentido um indivíduo sedentário se preocupar em ingerir creatina, após ter assistido ao seu programa favorito na televisão. Mas essa mesma pessoa poderia se beneficiar consumindo alimentos em pó, ricos em nutrientes, nas refeições em que costuma ingerir apenas alimentos fonte de calorias vazias.

Tenho consciência de que essa mudança de paradigma, em relação ao uso de suplementos alimentares, é polêmica e perpassa os conceitos de “certo e errado” veiculados pelos meios de comunicação. Ações práticas, como a revisão da regulamentação publicitária de produtos alimentícios, uma nova estratégia comercial da própria indústria de suplementos, políticas públicas efetivamente preocupadas com as inúmeras doenças relacionadas ao sobrebeso/obesidade, são apenas algumas, entre as tantas medidas que se fazem necessárias para que a população aprenda, de fato, a comer bem e melhor.

Rodolfo Peres é nutricionista especialista em nutrição esportiva. Atende desde atletas de alto nível a pessoas que simplesmente buscam uma melhor qualidade de vida.